sexta-feira, agosto 27, 2004

Scheidt sangue bom

de Gulherme Fiuza, em www.nominimo.com.br

25.08.2004 |  Por que a campeã mundial, cujo nome batizou um salto que
não existia antes dela, treme no momento mais importante de sua
carreira? Ninguém pode ter dúvidas de que Daiane dos Santos estava
emocionalmente derrotada na hora de buscar a medalha de ouro. Sua
expressão de pânico, em close, segundos antes de se apresentar, e sua
respiração brusca prenunciavam os erros grosseiros. Ninguém nunca vira
Daiane terminar um salto quicando daquele jeito, tendo que puxar o
freio de mão para não descarrilar de vez. Tecnicamente estava fora de
si, e na hora da consagração – ao contrário do iatista Robert Scheidt –
fez tudo errado.
Scheidt fez tudo certo, embora infelizmente, afora a minoria de
iniciados, não saibamos o que ele fez. O Brasil quer se ufanar de seu
maior atleta olímpico, mas não tem a menor idéia de quais foram as suas
manobras de craque, do que o diferencia, enfim, do medalha de prata –
ou do último colocado. Até o duplo twist carpado é mais fácil de
entender. O iatismo talvez seja o único esporte olímpico que quase não
faz diferença acompanhar por fotos ou pela TV. Alguém captou a imagem
de uma ultrapassagem decisiva do campeão sobre seu maior rival?
Robert Scheidt já passou à história como um grande brasileiro, e além
de tudo é um personagem simpático. Mas está na cara que o Brasil
preferia ter sido feliz com Daiane, a gauchinha voadora. E nessas
horas, aparece ali no fundo da alma nacional aquela pergunta incômoda:
o que o lourão tem que a neguinha não tem? Nem vale a pena mobilizar
psicanalistas e antropólogos em busca dessa resposta, mas é curioso
observar o que passa na cabeça dos brasileiros, mesmo através dos atos
falhos.
Na reta de chegada da última regata da classe laser, os locutores se
desdobraram para agregar à cena a emoção que ela não provocava. Afinal,
faltavam poucos metros para o ouro. Embora diante de uma imagem
virtualmente parada, alguns narraram aqueles minutos finais como se
transmitissem uma prova de turfe. Lembrava um pouco as transmissões de
futebol pelo rádio, em que até a jogada tediosa no meio-campo ganha
clima de vida ou morte. “Lá vem Robert Scheidt, é a arrancada final,
agora ninguém segura...!”, exclamavam os locutores, num tom crescente
de quem estava prestes a soltar um grito de gol a qualquer momento.
Foi nessa hora que o comentarista de iatismo da Globo, na sua difícil
missão de traduzir as virtudes do herói e as características gerais da
prova (“são quantas bóias mesmo?”, perguntava-lhe o locutor), proferiu
seu comentário definitivo. O desafio era compreender algumas das
qualidades, como regularidade e velocidade, que destacavam Scheidt dos
demais, e aí veio o diagnóstico certeiro: “Nessas horas, o sangue
alemão faz a diferença.”
Ou seja: por muito pouco a felicidade verde-amarela não foi completa.
Se a maior ginasta brasileira se chamasse Daiane Scheidt, ela haveria
de saber triunfar também. Mais seguro mesmo seria se a grafia fosse
“Diane”, deixando a Daiane, ou mesmo a Daieine, só para a pronúncia.
Com um nome desses, dificilmente ela tremeria na hora decisiva.
Disparates à parte, Scheidt foi frio, calculista, olímpico, enquanto
Dos Santos afundou sua técnica numa tempestade de emoção. Mas Dos
Santos é para sempre o nome de uma manobra olímpica sobre-humana,
enquanto Scheidt continuará sendo apenas um digno e honrado sobrenome
humano.
O que aconteceu com Daiane – combinando-se de deixar para lá a tal da
frieza alemã – talvez tenha sido o mesmo que aconteceu com os locutores
na prova final do iatismo: síndrome de patriotismo exacerbado. Com um
pouco mais de sobriedade, talvez se aceite um dia que iatismo não é
futebol, que o campeão não é o Pelé da vela e que mito não se cria com
palavra de ordem. Aí, com a emoção livre das distorções ufanistas,
ficará evidente que é muito mais fácil dar o duplo twist carpado sem um
país pendurado nas costas.